Correio Braziliense: Haja paciência!

Brasilienses enfrentam diariamente quase 60km de congestionamentos na ida para o Plano Piloto e na volta para casa. Obras em andamento devem diminuir a lentidão nas vias

Foi-se o tempo em que os moradores do Distrito Federal enfrentavam pequenas retenções no trânsito. Os congestionamentos na capital do país e regiões administrativas, agora, podem ser contados em quilômetros. E não são poucos. Os engarrafamentos na ida para o trabalho ou na volta para casa se aproximam de 30km em dias sem acidentes graves, chuvas fortes ou manifestações na Esplanada dos Ministérios. São quase 60km de sofrimento diário para os brasilienses. As lentidões são causadas, principalmente, pelo excesso de carros circulando no DF. Atualmente, 1,062 milhão de veículos disputam espaços e vagas pelas vias. E, apesar da crise econômica, a frota não dá sinais de que vá diminuir o ritmo de crescimento.

Para se ter uma ideia, só em janeiro e fevereiro deste ano foram emplacados 19.271 carros novos no DF. O número representa 7,7% a mais que no mesmo período de 2008 e é 220% maior que os dois primeiros meses de 2000. O resultado do aumento do número de veículos nas vias não podia ser diferente. É cada vez maior a demora enfrentada pelos brasilienses para chegar no trabalho, em casa, na escola das crianças.

Na manhã da última quinta-feira, por exemplo, havia 25,4km de engarrafamento nas vias de acesso ao Plano Piloto. Os cálculos foram feitos, a pedido do Correio Braziliense, pelos agentes do Departamento de Trânsito do DF (Detran) em sobrevoos pelos pontos críticos do trânsito (veja arte) na manhã e no início da noite de quinta-feira e na manhã de sexta-feira. Por causa das restrições aéreas na região do aeroporto, não entraram na conta vias movimentadas como a Estrada Parque Núcleo Bandeirante, as principais vias do ParkWay e do Lago Sul.

No primeiro sobrevoo, entre às 7h30 e 8h24, o Detran identificou 10 pontos de lentidão. O pior deles pegou em cheio os motoristas que seguiam da Estrutural para a região central de Brasília. Apesar das duas pistas abertas para o fluxo Taguatinga-Plano, havia 7,2km na pista sul e 2,8km na pista norte. E o transtorno continuava para quem passava pela Igreja Rainha da Paz até a Torre de TV, já que, nesse ponto, o trânsito recebe também o movimento do Sudoeste e Cruzeiro.

Apesar de estar longe dali, o auxiliar logístico Leonardo Ribeiro Araújo, de 26 anos, sofreu com o trânsito. O motor do carro que ele dirigia do Gama, onde mora, ao Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), aqueceu e o deixou a pé. Os amigos que pegavam carona ligaram para o serviço para avisar que, naquela manhã, todo mundo iria chegar atrasado. “Não faz muito tempo, gastava 30 minutos para chegar ao trabalho. Hoje, é fácil gastar o triplo do tempo”, lamentou. Naquela região, próximo ao SIA, o engarrafamento era de 3,5km. “As obras no viaduto perto do shopping (ParkShopping) atrasam mais ainda”, diagnosticou.

Volta sofrida

Na volta para casa, o cenário é ainda pior porque a maioria dos brasilienses é liberada na mesma hora do trabalho ou dos estudos. No horário de pico, por volta das 18h, o Detran listou 12 pontos de estrangulamento do trânsito que, juntos, somavam 29,1km de lentidão. Alguns pontos sofrem efeito de obras feitas para alargamento das pistas, como é o caso da duplicação do Viaduto Camargo Correia, que liga o Eixão à via que dá acesso ao Balão do Aeroporto, e o viaduto sobre a Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia).

“Quero conhecer alguém que faz obra sem atrapalhar o trânsito. É um mal necessário”, justifica o secretário de Transportes, Alberto Fraga. De acordo com ele, só com as mudanças estruturais nas vias, o DF estará preparado para enfrentar a próxima década. “Essa extensão de engarrafamentos deixa claro que o sistema viário está estrangulado e não comporta mais veículos. Sem isso, vai parar tudo”, completa. Além das obras, Fraga destaca o Programa Brasília Integrada como solução para os congestionamentos. “Temos que melhorar a qualidade do transporte e os brasilienses têm que ser mais solidários”, afirma. De acordo com ele, 70% dos carros do DF são ocupados apenas pelo passageiro.

Para o professor da Universidade de Brasília Paulo César Marques, é fundamental que o governo crie programas de incentivo à carona solidária. “Atualmente, há um desestímulo. Com o combate aos veículos piratas, as pessoas ficam com medo de levar colegas e serem mal interpretados”, observa. Ele destaca que, em várias cidades do mundo, existem projetos para estimular a carona. “Empresas que cobram pelo estacionamento podem isentar quem divide o carro. Além disso, existem lugares com vias específicas para os carros com mais passageiros.” Para fugir do trânsito, o professor da UnB usa a bicicleta para se locomover do trabalho para a Asa Norte, onde mora. “Não procuro vaga e nem sofro com engarrafamentos.”

Fonte: Correio Braziliense

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