Correio Braziliense: A cura pela caridade

No Hospital de Base, 300 voluntários auxiliam pacientes e descobrem na ajuda a superação dos próprios males

A história de Sônia Muniz mostra que ajudar pessoas doentes pode ser a melhor forma de resolver os próprios problemas. Vice-presidente do Serviço Auxiliar dos Voluntários (SAV) do Hospital de Base, Sônia chegou à casa de saúde há 12 anos para cuidar dos outros, e acabou superando uma enfermidade chamada ausência. “Eu desmaiava de uma hora para a outra, sem explicação”, lembra a professora aposentada. Instruída por seu médico, Sônia procurou o SAV e se curou. Ajudar serviu de terapia. Como ela, os quase 300 voluntários que atuam no Hospital de Base perceberam que a vida pode se tornar bem melhor quando se estende a mão a quem precisa.

Depois de perder o marido e se aposentar, a assistente social Lúcia Gomes precisava se ocupar. “Eu tinha que lutar contra a solidão e acabei topando com esse serviço de voluntária. Resultado? Os dias em que venho ao hospital são os mais felizes da minha vida”, sorri Lúcia. A voluntária fez um curso de cabelereiro há 10 anos e tem usado seus conhecimentos para alegrar os pacientes do hospital. A cabelereira Marilene de Sousa, de 32 anos, presta o mesmo serviço.

Dona de um salão de beleza em Valparaíso, Marilene sentiu na pele os efeitos da doença quando teve de cuidar dos irmãos que estavam com depressão e resolveu procurar o hospital para oferecer ajuda. Sorte de seu Antônio Alves, que ganhou um corte de cabelo de graça. “Esse auxílio melhora muito o dia da gente”, elogia Antônio, internado há nove dias no hospital para se tratar de uma trombose nos dedos da mão. Exemplos similares ao de Marilene, de pessoas que passaram por momentos difíceis e perceberam o valor do voluntariado, não faltam no Hospital de Base.

O estudante Gabriel Albuquerque, de 19 anos, quebrou o braço em um acidente de trânsito nas últimas férias e frequentou o hospital durante três meses para fazer as trocar periódicas do gesso. “Vi pessoas em situação muito pior do que a minha durante esse tempo e percebi que precisava ajudar”, lembra. Gabriel trabalha há dois meses como voluntário no SAV e já instrui o novato Tiago Viegas, de 28 anos. O servidor público conheceu o serviço do SAV por uma reportagem do Correio publicada há cerca de um ano. “Guardei a matéria no computador e, agora que arrumei um tempinho, vou ajudar”, diz.

O Hospital de Base conta com três grupos de voluntários. O mais abrangente deles é o SAV, que atende a quase todas as clínicas do hospital. “Recebemos doações de todos os tipos, de copos de requeijão a televisões”, explica Maria Tereza Marinho Carneiro Cunha, presidente do grupo. Numa salinha localizada nas dependências do hospital, os voluntários do SAV armazenam doações como roupas, liquidificadores e fitas de vídeo. Se for preciso, o grupo vai buscar as doações em casa.

“O que os pacientes não podem utilizar, nós vendemos para comprar coisas que eles vão usar, como produtos de higiene”, explica Maria Tereza. Há uma tabela de preços com um valor menor e um maior no SAV. Quem tem poucas posses e não pode arcar com muitos gastos paga o menor preço da tabela, ou até menos. Além de presidir o serviço, Maria Tereza organiza sessões de Reiki, uma terapia energética que ajuda os pacientes a se livrar da dor. “Eles sabem colocar as mãos nos lugares certos, mesmo sem a gente dizer onde está doendo”, elogia a paciente Gilda Silva, de 62 anos, internada há três meses devido a um problema na coluna.

Treinamento

“Quanto mais a gente doa, mais a gente recebe”, ensina Vera Lúcia Bezerra da Silva , coordenadora dos voluntários da Rede Feminina de Combate ao Câncer. Os 80 colaboradores da rede atuam de forma semelhante ao pessoal do SAV, mas voltados para pacientes que se tratam de câncer. O mesmo acontece com o Movimento de Apoio ao Paciente com Câncer (MAC). “Nós suprimos o pessoal do 10º andar, que é reservado para tratamentos mais delicados, com tudo que eles precisam”, conta Maria José Oliveira de Souza, 61 anos, tesoureira do MAC. De pasta de dente a cadeiras de rodas, os três grupos tentam arcar com todas as necessidades dos pacientes internados no hospital. E exigem comprometimento.

Qualquer pessoa pode se voluntariar para ajudar os pacientes do Hospital de Base, mas o serviço é organizado. Os bem intencionados que procuram os grupos do hospital passam por um processo de seleção e recebem treinamento para saber como se comportar. “Costumo dizer que nossos voluntários têm que ser cegos, surdos e mudos”, diz a presidente do SAV. Como estão ali apenas para ajudar os pacientes, os voluntários não são autorizados a interferir no trabalho dos médicos, ainda que, ao seu ver, algo de errado esteja acontecendo. “Não é qualquer pessoa que consegue”, admite Maria Tereza.

Uma dos serviços mais importantes dos voluntários é simplesmente fazer companhia. Os grupos organizam apresentações de música quando podem, exibem vídeos e conversam com os enfermos. Muitos dos pacientes internados no Hospital de Base não são do Distrito Federal e não têm suas famílias por perto. “Os voluntários atuam nos intervalos”, diz Carlos Schimin, diretor do Hospital de Base. Depois de 30 anos de serviço na Secretaria de Saúde, Schimin só veio conhecer o voluntariado há dois anos, e ficou fascinado. “Eu nunca tinha tido oportunidade de conversar com eles. Quando o fiz, em 2007, me surpreendi com o quanto eles nos ajudam”, conta. Segundo o diretor, a discrição dos voluntários impede que os médicos conheçam seu trabalho.

Satisfeito com o serviço dos ajudantes, o diretor permitiu que os grupos fossem aumentados nos últimos meses. “Talvez pudéssemos reservar um local melhor para eles, ajudar mais, mas o hospital passa por reformas e enfrentamos limitações de espaço”, lamenta Schimin, que já pensa em se tornar voluntário depois de aposentado. “É mais gratificante para quem faz do que para quem recebe”, reconhece o médico.

Mãos estendidas

Rede Feminina de Combate ao Câncer

Criada em 1997, conta com 80 voluntários que atuam nas unidades de mastologia, oncologia ginecológica, oncologia clínica, radioterapia, quimioterapia e nas enfermarias do Hospital de Base. Duzentos pacientes cadastrados recebem mensalmente cestas básicas do grupo. A rede recebe doações de qualquer tipo e, dependendo da necessidade, as busca. Quem estiver interessado em participar deve ligar para os números 3315-1221, 3364-5467 e 8421-7268.

Movimento de Apoio ao Paciente com Câncer (MAC)

O MAC existe desde 1992 e é composto por 80 voluntários. Em dias de grande atividade na quimioterapia do hospital, o grupo chega a servir 600 lanches. Todas as quartas-feiras, um dos voluntários registra as necessidades dos pacientes que se tratam de câncer. Depois, o grupo parte atrás dos produtos de higiene e vestuário que estão faltando. Quem quiser colaborar com o grupo pode ligar para os números 3315-1687 e 8442-9091.

Serviço Auxiliar dos Voluntários (SAV)

Criado em 1981, o SAV é composto por 130 voluntários e atende a todas as clínicas do hospital, com exceção da oncologia adulta. Além de promover cortes de cabelo e barba e prestar o serviço de apoio emocional, o grupo também fornece material de higiene e vestuário aos pacientes. Os voluntários recebem qualquer doação, de copos de requeijão a televisões. Quem quiser ajudar o SAV deve ligar para os números 3366-2739 e 8184-8855.

Fonte: Correio Braziliense

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