Correio Braziliense: A crise e os trabalhadores

EMIR SADER
Sociólogo

Os trabalhadores foram e continuam
sendo as vítimas privilegiadas das
políticas neoliberais. A instauração
do neoliberalismo se fez montado
numa imensa virada na correlação de forças
entre as classes fundamentais, com um
aumento exponencial na apropriação do
excedente pelo grande capital à custa dos
trabalhadores.

As formas foram múltiplas, pela combinação
entre precarização das relações de trabalho,
que levou a que a maioria dos trabalhadores
não tenha contrato de trabalho; o desemprego
aberto e velado; a extensão das jornadas
de trabalho; a intensificação das condições
de trabalho; a fragmentação da classe
trabalhadora e as consequentes dificuldades
de organização que produz, entre outras. Como
resultado, se enfraqueceu o sindicalismo,
assim como a identidade com o mundo do
trabalho, ao mesmo tempo em que a mídia
contribuía decisivamente, invisibilizando os
temas do mundo do trabalho. As teorias do
fim do emprego na realidade se referem às
tentativas de extinção do emprego formal,
porque nunca tantos viveram do seu trabalho
como no mundo atual. Porém ao fazê-lo sob
condições heterogêneas, trabalhando em várias
atividades ao mesmo tempo ou mudando
de atividades de um mês para outro, terminam
dificultando a organização, enfraquecendo
a cultura do trabalho e a assunção da
identidade de trabalhador, assim como das
profissões, que mudam de um tempo a outro.

As políticas neoliberais produziram também
um grande processo de proletarização
de amplos setores das classes médias, empobrecidas
pela perda do emprego formal e pela
concentração de renda das políticas implementadas
pelos governos. O mundo do trabalho
nunca congregou tanta gente, embora as
condições do trabalho concreto nunca tenham
sido tão diversificadas. O que não impede
que todos sejam superexplorados e fonte
fundamental da gigantesca acumulação de
capital que produzem as grandes fortunas
exibidas obscenamente pela mídia.

Políticas minimamente antineoliberais de
alguns governos — concentrados na América
Latina — permitiram a retomada de certo nível
de empregos formais, mesmo com baixa
qualificação, voltando a dar certa força de negociação
aos sindicatos e protagonismo às
centrais sindicais. Políticas redistributivas
mediante programas sociais, elevação real
dos salários, promoveram a extensão e o fortalecimento
do mercado interno de consumo
popular, ao mesmo tempo que, em alguns casos,
o movimento sindical tenha voltado a obter
certos espaços de protagonismo público,
mesmo quase sempre sabotado pela mídia.

A crise fez voltar a recair sobre os trabalhadores
o peso da recessão provocada pela especulação
financeira, de que se valem as empresas
para, como primeira medida, dispensar
trabalhadores. Nos anos de crescimento
que antecederam a crise, se multiplicaram os
lucros; no momento da recessão, as empresas
nem sequer queimam uma parte dos lucros
acumulados, dispensando imediatamente
milhares de trabalhadores, como se o direito
ao emprego não fosse um direito essencial
para a imensa maioria da população, que vive
do seu trabalho.

Os governos e as forças políticas neste momento
se diferenciam, quando jogam todos
seus esforços para diminuir os efeitos da recessão
e garantir ritmos de continuidade no
crescimento econômico, ao lado da garantia
do emprego, dos que apostam na catástrofe
econômica, acreditando que, com isso, se enfraquecem
governos que colocam ênfase nas
políticas sociais. Os trabalhadores e suas organizações
têm que se alinhar em torno dessa
polarização, lutando para que as medidas dos
governos para alimentar o nível de crescimento
econômico sejam todas indissociavelmente
ligadas à garantia do emprego — direito
essencial, se queremos construir uma democracia
social.

Fonte: Correio Braziliense

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