Correio Braziliense: Coleta seletiva não decolou

Segundo o Serviço de Limpeza Urbana, apenas 8% das 180 toneladas de resíduos produzidos mensalmente pelos brasilienses são separados e reciclados. Parceria com cooperativas e órgãos públicos pode mudar essa realidade

Todos os dias, o movimento de caminhões é intenso na Cooperativa 100 Dimensão, no Riacho Fundo. As caçambas chegam ao local carregadas de lixo seco de vários pontos do Distrito Federal. Poucas horas depois, voltam vazias às ruas para mais um carregamento. Catadores independentes recolhem materiais recicláveis em órgãos públicos, empresas, escolas e residências. Só essa cooperativa recebe, por mês, quase 100 toneladas de resíduos secos — sendo 60% de papéis. Em um grande galpão vazado, 30 pessoas se revezam em três turnos na separação dos produtos por categoria. Os materiais são prensados e vendidos às empresas de reciclagem. Nas mãos certas, o que havia sido dispensado como lixo transforma-se em obra de arte e renda para dezenas de famílias.

A 100 Dimensão é uma das 30 cooperativas atuantes no DF. Em parceria com o Serviço de Limpeza Urbana (SLU), os catadores auxiliam na implementação do sistema de coleta seletiva. Idealizada pelo governo ao longo dos últimos anos, a separação do lixo seco do orgânico ainda é precária na região. Segundo a diretora-geral do SLU, Fátima Có, apenas 3% das residências — do Plano Piloto e Sudoeste — contam com a coleta seletiva. E cerca de 8% das 180 toneladas produzidas pelos candangos a cada mês são separados e tratados. O resto é abandonado nos aterros sanitários. Quem mora fora do eixo de atuação do governo pode separar o lixo por conta própria e, então, ligar para cooperativas e empresas de reciclagem. O material, no entanto, passará pela separação quando chegar ao lixão.

Para a diretora-presidente da 100 Dimensão, Sônia Maria da Silva, a coleta seletiva só será uma realidade em todo o DF quando a população tiver consciência do lixo produzido diariamente e os órgãos responsáveis pela limpeza urbana ganharem autonomia para agir. “Sentimos a necessidade de acelerar esse processo da coleta. Todo mundo sairá ganhando”, defendeu. Ela acredita que, para efetivar a mudança, deve haver cooperação da população, do governo e das empresas. “A produção de lixo cresceu muito e a população ainda não tem consciência da quantidade que chega até nós. Não conseguimos controlar tanto resíduo ao fim do processo”. “A coleta seletiva é boa para quem desenvolve isso dentro de casa e para os catadores, que ainda vivem na linha da miséria”, acrescenta Sônia da Silva.

Trabalho conjunto

A fim de disseminar a coleta diferenciada, Fátima Có fechou parceria com 10 cooperativas. Dessa forma, o governo alcança áreas fora do eixo central de Brasília que ainda não contam com a coleta diferenciada dos resíduos sólidos. Ela espera ampliar o número de acordos este ano. Lado a lado com a Fundação do Banco do Brasil, o SLU iniciará ainda a campanha Coleta Seletiva Solidária no Distrito Federal. O programa existe em âmbito nacional graças a um decreto assinado pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro de 2006 (veja O que diz a lei). Desde então, órgãos federais tiveram de incentivar a coleta seletiva em parceria com cooperativas de material reciclável.

Ranking

O brasiliense é o que mais produz lixo em todo o país. Cada morador da capital produziu, em 2008, uma média de 2,4kg de lixo por dia. Por ano, são 876kg por pessoa. O DF também lidera o ranking de produtores de resíduos sólidos em relação a outros estados. Dados do Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades, calculam 1,96kg produzidos, diariamente, por habitante. Em seguida aparece a Paraíba, com 1,56kg.

Mudança

A Polícia Federal também modificou a rotina para tornar a coleta seletiva uma realidade. O material reciclável é guardado em um pequeno quarto. Quando atinge um determinado nível, a comissão da coleta seletiva instituída no órgão liga para a cooperativa, que busca os resíduos sólidos. O decreto determina que haja sorteio para quatro cooperativas atuarem a cada seis meses nos órgãos.

O que diz a lei

O Decreto nº 5.940, de 25 de outubro de 2006, institui a separação de resíduos recicláveis descartados pelos órgãos e entidades da administração pública federal e a destinação às associações e cooperativas dos catadores.

Art. 3o – Estarão habilitadas aquelas que atenderem aos seguintes requisitos:

I – estejam formal e exclusivamente constituídas por catadores que tenham a catação como única fonte de renda;

II – não tenham fins lucrativos;

III – possuam infraestrutura para realizar a triagem e a classificação dos resíduos recicláveis descartados; e

IV – apresentem o sistema de rateio entre os associados e cooperados.

Art. 5o – Será constituída uma Comissão para a Coleta Seletiva Solidária, no âmbito de cada órgão e entidade da administração pública federal direita e indireta, no prazo de 90 dias, a contar da publicação deste Decreto.

Esforço, até agora, em vão

A favor da coleta seletiva, a Fundação do Banco do Brasil, também fechou acordo com o governo federal para transformar quatro terrenos do Ministério do Planejamento em espaço de trabalho de catadores de produtos recicláveis. Os lotes, localizados na Estrutural, no Riacho Fundo, em Planaltina e no Lago Oeste, totalizam 160 mil m². O investimento é de R$ 2,1 milhões. Dessa forma, Fátima Có, do SLU, acredita que a coleta seletiva abrangerá todo o DF até o fim do ano. Até lá, ela pede que a população mude, aos poucos, a rotina de separação do lixo orgânico e seco. “Os sacos misturados estragam mais o lixo reciclável e dificultam na separação dos resíduos no lixão”, disse.

O prefeito comunitário da 408 Sul, José Camilo da Silva Santos, 65 anos, tenta conscientizar os moradores da quadra para fazer a coleta seletiva. Nunca obteve sucesso. Segundo ele, falta vontade das empresas de recolhimento de lixo e dos moradores em colaborar com a limpeza da quadra. “A gente até separa o lixo. Mas as outras pessoas da quadra deixam tudo junto. É necessário mexer com a mentalidade delas”, acredita José Camilo. Ele encontrou sofás, pias e até vasos sanitários no meio da quadra. “Alguns ainda jogam lixo pela janela do apartamento”, indigna-se. O prefeito comunitário reclama ainda da condição dos contêiners deixados próximo aos blocos, normalmente quebrados e sem identificação do que é lixo seco e orgânico.

Ele já tentou mobilizar síndicos dos prédios da 408 Sul e os moradores distribuindo ofícios, circulares e reuniões. Mas o jeito é utilizar o dinheiro da prefeitura comunitária para resolver os problemas. Volta e meia, José Camilo paga R$ 80 por dia a terceiros para realizar a limpeza da quadra e a dedetização de baratas. “Alguns moradores deixam arroz e pão para pombos no meio da quadra. Essas pessoas não devem separar o lixo dentro de casa”, aposta. Enquanto isso, ele corre atrás para tentar manter a quadra um lugar agradável de viver.(JB)

Fonte: Correio Braziliense

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