Prisão cai na boca do povo

Detenção e afastamento provocaram manifestações nas ruas e em frente ao STF, onde o movimento Fora Arruda permanece em vigília. Por todo o Distrito Federal, não se falou em outra coisa

A notícia da prisão do governador José Roberto Arruda se espalhou como rastilho de pólvora pelo Distrito Federal. Nas repartições públicas e empresas particulares, a tarde de ontem foi diferente, pois não se falava em outra coisa. “Estávamos acompanhando na televisão a votação. O serviço praticamente parou e todo mundo ficou atento”, disse a assistente administrativa Isolda Pimentel, 20 anos, que trabalha no Ministério da Fazenda. Ela se referia à votação dos ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que por 12 votos a dois decidiram pela detenção e pelo afastamento de Arruda do cargo.

A repercussão do caso logo chegou à Rodoviária do Plano Piloto, onde circulam diariamente cerca de 500 mil pessoas. Quem ainda não estava ciente da informação que abalou mais uma vez a política na capital federal se surpreendia ao saber da notícia. O soldado da Força Área Brasileira (FAB) Aléx Levi Rodrigues, 21 anos, custou a acreditar. “É difícil ver gente poderosa na cadeia. Sinceramente, ainda duvido um pouco que isso tenha acontecido realmente”, comentou.

O servidor público Robson Guanieiro, 51 anos, considerou a decisão da Justiça um progresso para o país e, diferentemente das demais pessoas ouvidas pelo Correio, disse ainda acreditar na política. “O que eu não acredito é em algumas pessoas que procuram transformá-la em algo ruim”, afirmou.

Buzinaço

No trânsito, os motoristas também se manifestavam, inclusive em frente à residência oficial de Águas Claras, de onde Arruda saiu para se entregar à Polícia Federal na tarde de ontem. A grande movimentação da imprensa no centro de Brasília chamou a atenção dos condutores, que buzinavam, gritavam e acenavam sempre que viam alguma equipe de reportagem. “Arruda na cadeia!”, gritou um deles, na altura da Rodoviária do Plano Piloto. Um outro, que transitava em frente à Praça dos Três Poderes, tinha opinião contrária: “Deixa o homem trabalhar!”.

Logo após saberem da decisão da Justiça, integrantes do Movimento Fora Arruda organizaram pelo Twitter uma manifestação em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde estava sendo analisado o pedido de habeas corpus feito pelos advogados de Arruda. Munidas de faixas, cartazes, bandeiras e velas, cerca de 150 pessoas, a maioria estudante da Universidade de Brasília (UnB) e representantes de entidades sindicais, protestavam contra os políticos citados no inquérito da Operação Caixa de Pandora, da PF, que investiga um suposto esquema de distribuição de propina no GDF.

Eles se encontraram no STF por volta das 19h e, em assembleia, por volta das 23h, decidiram que iriam passar a noite no local fazendo vigília. Durante o tempo em que os manifestantes permaneceram em frente ao Supremo não foi registrado nenhum incidente. Cerca de 20 policiais militares e cinco viaturas foram mobilizados para acompanhar a manifestação. A funcionária pública Talita Victor, 25 anos, resolveu fazer coro no movimento. Assim como os outros, ela comemorou a decisão judicial. “A população esperava muito por essa decisão. Isso nos dá esperança para continuar acreditando que as coisas podem mudar para melhor”, opinou.

Num dos atos, os estudantes acenderam velas e escreveram no chão: “Fora Arruda, PO e toda a máfia”. Eles prometem fazer muito barulho nos próximos dias, com a presença maciça nos blocos carnavalescos da cidade e concentração em outros pontos do DF, que ainda serão definidos.

Entidades apoiam decisão do STJ

Poucas horas depois da prisão do governador licenciado José Roberto Arruda, partidos políticos e entidades engajadas na luta contra o suposto esquema de corrupção no Governo do Distrito Federal se manifestaram sobre a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A executiva nacional do Democratas, ex-partido de Arruda, pediu que seus filiados deixem os cargos ocupados no GDF sob pena de sofrer sanções disciplinares. A legenda, no entanto, não se posicionou sobre a decisão judicial.

O presidente da OAB do Distrito Federal, Francisco Caputo, disse que pedirá novo pedido de impeachment, dessa vez, com Paulo Octávio no governo. O vice assumiu o Executivo ontem, logo após a prisão de Arruda. “Nada justifica a posse de Paulo Octávio. É público e notório que ele está envolvido no escândalo e não tem condições jurídicas e políticas para suceder o governador”, avaliou Caputo. Otimista, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (1)(OAB), Ophir Cavalcante, acredita que a decisão do ministro Fernando Gonçalves repõe a ordem, a lei e o bom senso à política brasileira. “Confere esperança à sociedade de que é possível derrotar a corrupção. A prisão pode ser o marco histórico da quebra da impunidade na política brasileira”, defendeu.

O presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Mozart Valadares, também apoiou a prisão do governador. Segundo ele, existiam indícios de que Arruda estaria tentando destruir provas do processo em que é acusado de corrupção. O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo, afirmou que a determinação é importante porque afasta a visão que se espraiou no país, de que corruptos e ladrões ficam impunes. O presidente da Associação Nacional dos Procuradores (Anpr), Antonio Carlos Bigonha, foi firme: “Essa decisão traz conforto de que atos ilegais como os denunciados em Brasília não ficarão impunes”.

Força popular

Pouco depois do anúncio da prisão do governador, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) estampou em seu site uma mensagem de apoio à medida judicial. De acordo com o manifesto, a detenção mostra a todo o Brasil a força da população de Brasília. Segundo o órgão, a ação é fruto de uma luta incansável, que envolveu marchas, atos e pressão popular. “A decisão da Corte do STJ foi de extrema integridade”, ressaltou a entidade. A presidente da CUT/DF, Rejane Pitanga, disse que a decretação da prisão de Arruda vai ao encontro dos anseios da sociedade e pede, inclusive, que as investigações sejam aprofundadas no período do governo Joaquim Roriz. “Está na hora de passar Brasília a limpo. Tem que se investigar o governo anterior também”, afirmou Rejane.

Em nota conjunta, o PT, PDT, PSB e PCdoB manifestaram “integral apoio” à decisão do STJ. O Psol foi um dos primeiros partidos de oposição a se manifestar sobre a decisão, na tarde de ontem. O presidente da legenda, Antonio Carlos de Andrade, acredita que o afastamento e a prisão não resolvem a “gravíssima crise” no DF. Para ele, é preciso que os cofres públicos sejam ressarcidos.

1 – Trâmite

Há três dias, a OAB nacional havia sugerido ao Ministério Público Federal o afastamento imediato ou a prisão preventiva do governador. O órgão, então, repassou o pedido ao STJ, que ontem deferiu a favor da proposta do ministro-relator Fernando Gonçalves.

Opinião do internauta

Leitores comentaram no site do Correio a prisão do governador afastado José Roberto Arruda. Veja algumas opiniões.

Fábio Leal

“Hoje estou um pouco mais feliz. É muito bom saber que, aos poucos, os criminosos vão descobrindo que não estão tão acima da lei assim.”

Pedro Mendes

“O Arruda conseguiu enterrar ainda mais o nome de Brasília. É o vexame supremo para a população do DF, principalmente para os honestos.”

Marta Souza

“Essa medida deveria ser estendida a todos os corruptos envolvidos nesse esquema e aos outros que ainda não apareceram nas investigações. Mas a punição deve ser igual para todos, em todos os lugares, sem distinção de partido político.”

Antônio Silva

“Polícia na rua impedindo que manifestantes se aproximem? Quem será chamado para fazer com que eles liberem as vias? O GDF foi implodido.”

Jacyra Diniz

“Nasci e me criei em Brasília, estou envergonhada com toda essa história. Agora, começo a acreditar que podemos voltar a ter orgulho da capital.”

Eduardo Fernandes

“Na Operação Aquarela, da Polícia Federal, o Roriz fugiu pelas portas dos fundos e renunciou. O Arruda deveria ter feito o mesmo. Mas, ao contrário do Roriz, Arruda pelo menos fez obra para tudo que é lado no DF.”

Dalmir Vieira

“Geraldo Naves, agora responda sem hipocrisia: O que é barra pesada para você, meu amigo?”

Vilmar Silva

“E a Eurides Brito? Tem que ir para a cadeia também. Parabéns à PF.”

Carlos Roberto

“O ministro Nilson Naves foi coerente: ‘Não vejo necessidade de se impor a prisão ao governador Arruda. A regra é a liberdade. A exceção é a prisão’. Não precisavam ter feito isso com o governador, que teve a coragem de organizar a bagunça deixada pelo Roriz.”

Ilton José

“Isto não vai dar em nada. Aguardem.”

Adalto Almeida

“Sabe o que pior? Ele vai, chora, que nem fez antes (no caso do painel) e, alguns anos depois, se candidata e o povo vem e vota nele de novo.”

Rodrigo Ladislau Batista

“A que ponto chegamos! Que vergonha ver um dirigente do nível de um governador preso. Que ao menos sirva de exemplo para mostrar que o Brasil está mudando. E vamos votar de forma consciente nas próximas eleições.”

Francinaldo Sousa

“Decisão correta, porém deveria ser não apenas o governador, mais sim todos envolvidos. Não adianta prender o líder e os comparsas estarem soltos.”

Fonte: Correio Braziliense

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