Uma gente pra lá de especial

Há menos de um ano, três rapazes e três moças com Síndrome de Down trabalham no Superior Tribunal de Justiça. Um deles virou assessor. Os outros cinco, agentes de portaria. Desde que chegaram, com verdade e alegria, mudaram as relações interpessoais naquela Casa de corredores largos e leis implacáveis

Era pra ser apenas inclusão. O nome é bonito. Está na moda. É politicamente correto, até. Foi mais que isso. Foi melhor que isso. Virou histórias de vida. De renascimentos, de encontros e de emoção. Difícil esconder a lágrima que é engolida para que o choro não molhe o terno preto do magistrado. São 11h, estamos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), lugar onde homens andam de toga e mulheres, de vestidos e saias bem-cortados e salto alto. Os corredores são largos. Os gabinetes, climatizados. Ali, julga-se a legalidade das decisões tomadas em instâncias inferiores.

Nas várias portarias internas do prédio gigantesco nota-se, trabalhando, uma gente que comumente não estaria ali. Não, não são os seguranças. São os seis novos funcionários. Moças e rapazes educados, sorridentes e muito dispostos a ajudar. Eles vestem impecáveis ternos pretos. Elas, terninhos — da mesma cor. Um deles não está na portaria. É assessor especial. Até ontem, trabalhava no gabinete da presidência. A partir da semana que vem, trabalhará no terceiro andar, na sala do mesmo ministro, o homem que humanizou aquele lugar de corredores largos e gabinetes abarrotados de leis.

Mas, afinal, quem são esses seis novos funcionários do STJ? É uma gente especial mesmo. Tão especial que, em menos de um ano, arrebatou a simpatia e o carinho de todos os outros funcionários da Casa. Até daquela gente de toga. Esses rapazes e essas moças são portadores da Síndrome de Down. Sim, e a única coisa que os torna diferentes daquela outra gente são os olhos puxadinhos. O resto é detalhe. Puro detalhe.

Eles levaram o sorriso, uma certa inocência e muita verdade — nunca mentem, não dissimulam e só dizem o que pensam e sentem. Levaram leveza a um lugar que nem sempre é leve. E fizeram aquela outra gente pensar em si mesma. Sem imaginar, esses rapazes e moças de olhos puxadinhos quebraram a sisudez do STJ. E ratificaram que ainda é bom sorrir e ser feliz. E como fizeram isso? Sorrindo, apenas sorrindo. Lei nenhuma seria capaz de ensinar isso.

Na manhã de ontem, o Correio teve o privilégio de conhecer essas seis pessoas. E ver como trabalham. Como se situam e estão inseridas naquele lugar. Chega-se à primeira portaria. É a que dá acesso ao gabinete da presidência. Lá, somos atendidos por um rapaz de terno escuro, sapatos da mesma cor, camisa branca e gravata vermelha. Está impecável. Senta-se à mesa onde trabalha, ao lado do gabinete do homem mais importante daquela Casa e um dos mais poderosos do país.

O rapaz se apresenta: “Meu nome é Renan de Castro Mota”. E faz questão de dizer que o Mota dele é apenas com um t. Conta mais. Revela sua grande paixão, o Corinthians. E nos mostra, no computador que usa, o brasão do timão. “Quero ser jogador de futebol”, revela. Passava das 11h. O homem de quem ele é assessor, dali a algumas horas, deixará a presidência. Passará a ser um dos 33 ministros daquela Casa.

“Capinha”

Na tarde de ontem, às 16h, o cearense Cesar Asfor Rocha, 62 anos, deixou, depois de dois anos, a presidência do STJ. Quem assume no seu lugar é o ministro Ari Pargendler, gaúcho de 65. Ao lado de Cesar, Renan, 25, o inseparável assessor. Foi na gestão de Cesar que a inclusão se fez presente. Em 2008, 220 deficientes auditivos compuseram o quadro de funcionários da Casa. Trabalharam na seção de digitalização dos processos.

A iniciativa foi um sucesso. “A produtividade foi 30% maior que a do ouvinte”, diz Cesar. Economia de tempo e dinheiro gasto nos correios (os processos demoravam, em média, sete meses para chegar a Brasília). Redução de papel, estantes e arquivos. Hoje, grande parte desses profissionais, que teve a chance do primeiro emprego, está em outros órgãos públicos. Gol de placa!

Há nove meses, chegou uma outra turma. Eram oito, mas dois desistiram. Ficaram seis — três rapazes e três moças. Todos têm Down. E isso, rigorosamente, como as decisões que são tomadas naquela Casa de homens de toga, não os tornou diferentes em nada. Renan foi levado para o então gabinete do presidente do STJ. Passou a acompanhá-lo nas sessões de plenário. Ajuda com os processos.

Usa até capinha — uma toga menor. E se sente, de verdade, um assessor. Ao andar pelos corredores assépticos do STJ, quando alguém lhe pergunta onde trabalha, o rapaz de 1,57m não hesita. Torna-se gigante ao responder: “Trabalho no gabinete do presidente”. Renan tem razão. Cesar é só elogios para o assessor: “Ele é muito esforçado”. E vibra com os novos rumos do rapaz de Brazlândia: “Ele abriu a própria conta bancária”.

Ao ser perguntado por que resolveu investir tanto em gente na sua gestão, o ministro Cesar chora. Segura a lágrima, para que ela não caia sobre o paletó preto, e mareja a voz: “A gente precisa acabar com tanto preconceito. Fiz tudo que podia fazer”. Sentado no sofá da ampla sala de recepção do chefe, Renanzinho, como é chamado na Casa, conta histórias de sua vida quando “era bebezinho”. Fala da morte do avô, de quem gostava muito. Que estuda num escola na região do Incra 8.

Empolgado, mostra o cartão de visita. E pede ao fotógrafo que mande as fotos para o e-mail dele. Dá-lhe, Renanzinho! Emocionado, o ministro diz: “Todos gostam dele aqui”. Renan sorri. É riso de verdade. E depois, numa pose de autoridade, com a mão no bolso da calça, andando de um lado para o outro, fala ao celular com um amigo de Brazlândia. Combina a balada. Sim, Renanzinho adora forró, sertanejo e axé.

A mãe, Jucela de Castro Mota, 49, apoio técnico da Secretaria de Educação, alegra-se: “Desde a ida para o STJ, ele ficou mais responsável, com maior autonomia. Com o salário (todos ganham R$ 690), compra as coisinhas dele e adora chamar os amigos para passear”.

Nas portarias, o Correio encontrou os outro cinco novos funcionários. Fernando César Tocantins Filho, 25 anos, mora no Cruzeiro. Faz natação e jiu jitsu. Adora malhar. Há nove meses, vê quem entra e sai. “É bom trabalhar com gente. Todo dia conheço uma pessoa nova”, diz. E conta que tinha uma namorada, ia se casar, mas a sogra “foi contra o casamento”. Antes, ele era empacotador de um supermercado na Asa Norte. “Aqui é o meu segundo emprego. Gosto mais daqui. Tenho mais amigos”, comemora. Vascaíno roxo, sonha ser advogado.

Com a saída de Cesar da presidência, a partir da semana que vem, Fernando será o novo “capinha” do novo presidente do STJ. E Renan? Continuará com o ministro Cesar, no gabinete. O mais comovente é que foi Renan quem indicou o amigo para o novo cargo. Pergunto para Fernando se ele vai ser mesmo. Espantado, ele responde: “Isso é com o Renan”. Eles são sensacionais.

Planos e sonhos

As comoventes histórias se sucedem. Contratados por meio do Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe) — exceto Renan, cujo contrato foi feito com a presidência do STJ —, os cinco funcionários são de diferentes regiões do DF. Paula Vidal, 22 anos, mora no Sudoeste. Faz teatro e dança. Numa das portarias do STJ, aprendeu a conhecer, todo dia, gente nova. “Eles são educados comigo”, ela diz. Sonho de verdade? “Quero trabalhar com eventos.”

Wagner Rodrigo Santos, do Lago Norte, é o mais novo do grupo. Está ali há um mês. De gel no cabelo, o rapaz de 20 anos é só empolgação: “Coloco as bolsas das mulheres na esteira e dou informações”. No futuro, Wagner decidiu: “Vou abrir uma loja de pizza”.

Liane Martins Collares (com dois “eles” , ela faz questão de esclarecer) é gaúcha de Bagé, tem 47 anos (carinha de menina), mora na Asa Sul, é atriz, escritora e nadadora. Já tem uma obra lançada: “Liane, mulher como todas”. Foi sucesso de público. “O livro foi patrocinado pela minha família. Lancei em Salvador, Bagé, Porto Alegre, Teresina e aqui”, conta. “Do que falo? Da minha vida, minha história, do nascimento até os 40 anos.”

Pensa que Liane parou por aí? Nunca. “Meu nome é trabalho”, diz, maravilhada. Uma segunda obra está a caminho: “Teatro, minha vida como atriz”. Insisto em saber do que se trata. Às gargalhadas, ela diz: “Não vou contar mais nada. Já falei demais. É surpresa”. Liane é deslumbrante. Feliz de quem pode cruzar com ela pelo caminho.

Aline de Jesus Luz, 33 anos, é do Riacho Fundo. Trabalhou numa creche, como monitora. Agora, é agente de portaria do STJ. “Fiz entrevista pra vir pra cá. Aí, pedi demissão do meu emprego”, conta. “É bom mudar de vez em quando”, avalia a moça, que também é atleta de natação e ganhou medalhas de ouro em competições nos Estados Unidos.

Supervisor do Cetefe, Gilberto Cardoso de Araújo, 30 anos, que acompanha o grupo diariamente no STJ, emociona-se: “Somos nós que aprendemos com eles”. O ministro Cesar, que acordou hoje ex-presidente do STJ, reflete: “Ninguém diz o que é pra eles. Não se apresentam como doutores, juízes, advogados. Dizem os próprios nomes. Com eles, até as relações mudaram por aqui”.

Isso, maior do que qualquer lei, chama-se humanização. É olho no olho. É verdade. E foi isso que esse homem de toga levou para aquela Casa gigantesca de corredores largos. Renan, Aline, Fernando, Liane, Wagner e Paula são, de fato, excepcionais — no sentido mais humano que a palavra puder expressar.

Fonte: Correio Braziliense

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