Correio Braziliense: Servidores aposentados respondem por quase um quarto da renda mensal do DF

Capital concentra os aposentados mais bem pagos do Brasil. Em média, eles ganham benefícios três vezes maior que o recebido por colegas no país. E, juntos, concentram um quarto da renda mensal de todos os trabalhadores do DF.

Praticamente um quarto da renda mensal de todos os brasilienses está nas mãos de 272,6 mil inativos. Eles ganham em média R$ 3,4 mil, o dobro da renda per capita do DF e três vezes mais do que os ex-trabalhadores recebem no país.

Os 272,6 mil aposentados do Distrito Federal possuem um potencial econômico de dar inveja a qualquer mercado consumidor. Representam 10% da população, mas respondem por 23,6% do total de rendimentos da capital do país. Significa dizer que praticamente um em cada quatro reais recebidos todos os meses pelos brasilienses está nas mãos dos idosos. Somadas, aposentadorias e outras rendas desse público movimentam, por mês, R$ 938,1 milhões. Levando-se em conta o 13º salário, o montante médio mensal ultrapassa a marca de R$ 1 bilhão. Anualmente, a grana dos brasilienses inativos supera o faturamento de gigantes da indústria e das empresas mais rentáveis dos setores varejista e de seguros em todo o país.

Puxada pelo rendimento do funcionalismo público, a média salarial dos aposentados, de R$ 3.441,40, é maior que o dobro da renda per capita geral do DF, calculada em R$ 1.503 — a mais alta entre as unidades da Federação. Na comparação com a média das aposentadorias pagas no restante do país — cerca de R$ 1.038,74 —, os inativos do DF ganham três vezes mais. No Lago Norte e no Lago Sul, as áreas mais nobres do DF, a renda média dos aposentados passa de R$ 10 mil, enquanto em regiões como o Itapoã o valor encontrado é de apenas R$ 708,80: uma diferença de 15 vezes.

Apesar de ainda ser considerada elevada, a discrepância interna despencou entre 2004 e 2011, ao passo que o peso dos aposentados na renda do DF saltou de 18,1% para 23,6% no mesmo período. Os números fazem parte de um estudo exclusivo feito a pedido do Correio pelo economista Júlio Miragaya, coordenador da comissão de desenvolvimento regional do Conselho Federal de Economia (Cofecon), a partir de dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), realizada pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan).

Expectativa de vida

O acelerado processo de envelhecimento e a redução na taxa de fertilidade e de natalidade explicam o franco crescimento do número de aposentados, uma tendência mundial. Oito anos atrás, eles eram 6,5% dos moradores do DF. Hoje, um em cada 10 habitantes não trabalha mais e ingressou em um grupo disposto a curtir a vida gastando. “É algo impressionante: são R$ 1 bilhão por mês direcionados basicamente para o consumo. Os aposentados não querem mais guardar dinheiro, querem gastá-lo”, define Miragaya, também diretor de gestão de informações da Codeplan.

Além dos aposentados pelo serviço público, que têm uma renda alta e estável, a inexpressiva previdência rural — sempre associada a baixos salários — contribui para o DF sustentar a maior média de aposentadoria. “Brasília se consolidou.

Os aposentados têm permanecido na cidade e mantido essa renda em circulação aqui”, acrescenta o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) José Carlos Oliveira. Ele alerta para a saturação do sistema previdenciário, mas estima que pelo menos nos próximos 30 anos a economia local será beneficiada pelo rendimento dos inativos.

Diante do atual cenário, Brasília tem tudo para se consolidar como a capital de um fenômeno conhecido nos Estados Unidos como gray power ou, em português, “o poder grisalho”. Especialistas usam o conceito para explicar a força econômica de um público com dinâmica de consumo bastante específica. “Eles têm dinheiro, mas as despesas foram drasticamente reduzidas. Os gastos vão para consumo imediato, para bens supérfluos. Não há mais planos de investimentos a longo prazo”, comenta o economista e professor do Ibmec José Ricardo da Costa e Silva.

Pós-emprego

Há cinco anos, Márcia Rezende, 55 anos, abandonou o crachá de servidora pública. Passou a viver com um salário pouco abaixo do integral, porém acima do teto dos adeptos do regime geral de previdência social, atualmente em R$ 3.912,20. “O pouco vira muito quando você se aposenta, porque as responsabilidades diminuem”, confirma a moradora da Asa Sul, em mais uma visita a um luxuoso salão de beleza. Ela gasta, em média, R$ 500 por mês com os cabelos, a pele e as unhas, o dobro de quando trabalhava. “Não estou linda? Não vale a pena?”, pergunta.

A maior parte da aposentadoria de Márcia, ela mesma confessa, está comprometida com os mimos. “Lanchinho no shopping com as amigas, viagem duas vezes por ano com o maridão (também aposentado), compras… Agora eu passo numa vitrine, olho, gosto de alguma coisa e digo: “Vou levar””, conta. Exemplo clássico do novo perfil de aposentado, Márcia se assume mais consumista na versão pós-emprego. “Trabalhei tanto pensando no amanhã e o amanhã chegou. É hora de viver intensamente”, completa ela, mãe de quatro filhos — três já saíram de casa.

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